Era...
Era eu!...
Débil e ténue
De mãos recostadas
No conforto inconsolável
Dos perfumes mudos de dor...
Eras...
Eras Tu!...
Que descias nas cascatas
Das minhas lágrimas
Que galgavam como lanças
Em dias de combate...
Era...
Era eu!...
Fortaleza em ruínas
Sentinela do vazio
Gemido balbuciante que fervilha
“ Levaram o meu Senhor...”
Eras...
Eras Tu!...
Na neblina da minha procura
No milagre do amor
No coração festivo
Que a vida celebrou... “Mestre”.
Era... Era o silêncio efémero do sepulcro
Num hino retumbante de Vitória.
Joao Luís Silva CM
2005-03-26
Homilia de Sexta -Feira Santa
Meus queridos irmãos e irmãs
Estamos aqui reunidos, unicamente porque o amor de Deus nos une e reúne, neste mistério que hoje celebramos que é a paixão e a morte do Senhor Jesus. Por isso mesmo só o silêncio orante de quem reza faz sentido.
É perante a cruz do Filho de Deus que descobrimos, quem somos, donde vimos e para onde vamos, a cruz de Cristo diz-nos quanto valemos aos olhos de Deus, e sabemos que valemos tudo.
A leitura do Livro do profeta Isaías que escutamos, fala-nos desse: “rosto desfigurado que tinha perdido a aparência humana, acostumado ao sofrimento”. Fala-nos desse vazio, que é a vida entregue, dentro da qual Deus constrói um mundo novo, vazio de egoísmo e poder para que o amor de Deus possa vir em cheio.
Só assim percebemos, que a cruz de Cristo é para nós sinal da presença amorosa de Deus, é a chave que desvenda e ilumina os mistérios da vida, da nossa vida e do nosso dia-a-dia.
Todos nós já fizemos a experiência do Jardim das Oliveiras, do abandono da solidão. Quantas vezes nos sentimos rejeitados, maltratados e sós.
Quantas vezes clamamos: Porquê Senhor, porquê tenho de sofrer?
Porque amamos e porque Deus nos ama.
“Amar é sofrer e sofrer é Amar”.
Esta a experiência de quem caminha com Jesus e para Jesus, porque Ele próprio deu a vida por nós.
E vós pais e mães de família, bem sabeis como isso é.
Quantas vezes vos rejeitastes para vos dardes aos vossos filhos.
E vós filhos quantas vezes o fizestes pelos a vossos pais já idosos e doentes.
Foi para sofrer?
Não!
Foi por amor, foi para não ver sofrer.
Esta é a mensagem da cruz do Senhor, nela fazemos a experiência de amar e dar a vida, é ai que experimentamos que o: “Seu jugo é suave e a Sua carga é leve”, porque Ele próprio a suporta connosco.
É esta capacidade de ir mais longe de ir até ao fim, como cantávamos no Salmo 22: “Meu Deus meu Deus porque me abandonaste”. Não é sentir-se abandonado por Deus, mas é fazer a experiência de todos os abandonados, que Cristo em Si transformou em Paz e em sinal de vitória.
Meus queridos irmãos e irmãs, pelo Evangelho sabemos que junto de Jesus no Monte Calvário estavam mais dois crucificados (o bom e o mau ladrão). Esses crucificados representam a humanidade inteira, somos nós nesta capacidade de dar a vida ou de a reter.
Percebemos também que ontem como hoje, Jesus nos quer no cimo da montanha e ao Seu lado para nos dar um Reino que é Ele próprio, percebemos ainda que em cada crucificado do mundo está Jesus.
Nesta Sexta-feira Santa meus irmãos o caminho de Jesus é o caminho que se oculta na esperança, e que nos torna peregrinos, é o caminho de Maria, que do caminho do Calvário, fez caminho para o coração de seu filho e para cada um de nós, como Mãe da humanidade.
Este é o nosso caminho, caminho de comunhão e salvação, de evangelização de vida.
Meus queridos amigos mergulhados neste mistério que é a cruz do Senhor só nos resta contemplar e exclamar: “Faz-nos morrer Senhor para que possamos nascer de novo para a vida nova que és Tu.
Celebramos hoje a morte do Senhor Jesus, certamente sentimo-nos comovidos não tanto porque o Filho de Deus morreu, mas sim porque foi por nós e para nós e porque o seu: “Amor permanece para sempre”.
João Luís Silva CM
Igreja de S. Tomás de Aquino – Lisboa
Estamos aqui reunidos, unicamente porque o amor de Deus nos une e reúne, neste mistério que hoje celebramos que é a paixão e a morte do Senhor Jesus. Por isso mesmo só o silêncio orante de quem reza faz sentido.
É perante a cruz do Filho de Deus que descobrimos, quem somos, donde vimos e para onde vamos, a cruz de Cristo diz-nos quanto valemos aos olhos de Deus, e sabemos que valemos tudo.
A leitura do Livro do profeta Isaías que escutamos, fala-nos desse: “rosto desfigurado que tinha perdido a aparência humana, acostumado ao sofrimento”. Fala-nos desse vazio, que é a vida entregue, dentro da qual Deus constrói um mundo novo, vazio de egoísmo e poder para que o amor de Deus possa vir em cheio.
Só assim percebemos, que a cruz de Cristo é para nós sinal da presença amorosa de Deus, é a chave que desvenda e ilumina os mistérios da vida, da nossa vida e do nosso dia-a-dia.
Todos nós já fizemos a experiência do Jardim das Oliveiras, do abandono da solidão. Quantas vezes nos sentimos rejeitados, maltratados e sós.
Quantas vezes clamamos: Porquê Senhor, porquê tenho de sofrer?
Porque amamos e porque Deus nos ama.
“Amar é sofrer e sofrer é Amar”.
Esta a experiência de quem caminha com Jesus e para Jesus, porque Ele próprio deu a vida por nós.
E vós pais e mães de família, bem sabeis como isso é.
Quantas vezes vos rejeitastes para vos dardes aos vossos filhos.
E vós filhos quantas vezes o fizestes pelos a vossos pais já idosos e doentes.
Foi para sofrer?
Não!
Foi por amor, foi para não ver sofrer.
Esta é a mensagem da cruz do Senhor, nela fazemos a experiência de amar e dar a vida, é ai que experimentamos que o: “Seu jugo é suave e a Sua carga é leve”, porque Ele próprio a suporta connosco.
É esta capacidade de ir mais longe de ir até ao fim, como cantávamos no Salmo 22: “Meu Deus meu Deus porque me abandonaste”. Não é sentir-se abandonado por Deus, mas é fazer a experiência de todos os abandonados, que Cristo em Si transformou em Paz e em sinal de vitória.
Meus queridos irmãos e irmãs, pelo Evangelho sabemos que junto de Jesus no Monte Calvário estavam mais dois crucificados (o bom e o mau ladrão). Esses crucificados representam a humanidade inteira, somos nós nesta capacidade de dar a vida ou de a reter.
Percebemos também que ontem como hoje, Jesus nos quer no cimo da montanha e ao Seu lado para nos dar um Reino que é Ele próprio, percebemos ainda que em cada crucificado do mundo está Jesus.
Nesta Sexta-feira Santa meus irmãos o caminho de Jesus é o caminho que se oculta na esperança, e que nos torna peregrinos, é o caminho de Maria, que do caminho do Calvário, fez caminho para o coração de seu filho e para cada um de nós, como Mãe da humanidade.
Este é o nosso caminho, caminho de comunhão e salvação, de evangelização de vida.
Meus queridos amigos mergulhados neste mistério que é a cruz do Senhor só nos resta contemplar e exclamar: “Faz-nos morrer Senhor para que possamos nascer de novo para a vida nova que és Tu.
Celebramos hoje a morte do Senhor Jesus, certamente sentimo-nos comovidos não tanto porque o Filho de Deus morreu, mas sim porque foi por nós e para nós e porque o seu: “Amor permanece para sempre”.
João Luís Silva CM
Igreja de S. Tomás de Aquino – Lisboa
2005-03-24
«Eu dei-vos o exemplo...»
Já amaste?
Porque Deus é amor, quando verdadeiramente amamos participamos no «SER» de Deus e, por isso, estamos dispostos a fazer tudo para promover a pessoa amada.
Já amaste? Se sim, certamente terás experimentado essa força que te leva a fazer coisas loucas, incompreensíveis e inaceitáveis para as pessoas de “bom-senso”.
O Evangelho de hoje, Quinta-feira Santa, descreve-nos a atitude desconcertante de Jesus e a hostil reacção de Pedro. O discípulo compreende que Jesus inverte a lógica estabelecida ao assumir o papel de servo, lavando os pés dos apóstolos. Pedro, como todas as pessoas de «bom-senso», protesta porque não aceita a «lógica do amor». Por palavras e actos Jesus diz-nos que quem ama vai mais longe, supera regras, ultrapassa limites, surpreende a cada momento e tudo é gratuitidade (é o que fazem a maioria das mães por causa de seus filhos...). Ser discípulo de Jesus é fazer do amor regra de vida. O importante é amar. Quanto se ama tudo está bem, como dizia S. Agostinho: «Ama e faz o que quiseres...»
AMAS?
David
Porque Deus é amor, quando verdadeiramente amamos participamos no «SER» de Deus e, por isso, estamos dispostos a fazer tudo para promover a pessoa amada.
Já amaste? Se sim, certamente terás experimentado essa força que te leva a fazer coisas loucas, incompreensíveis e inaceitáveis para as pessoas de “bom-senso”.
O Evangelho de hoje, Quinta-feira Santa, descreve-nos a atitude desconcertante de Jesus e a hostil reacção de Pedro. O discípulo compreende que Jesus inverte a lógica estabelecida ao assumir o papel de servo, lavando os pés dos apóstolos. Pedro, como todas as pessoas de «bom-senso», protesta porque não aceita a «lógica do amor». Por palavras e actos Jesus diz-nos que quem ama vai mais longe, supera regras, ultrapassa limites, surpreende a cada momento e tudo é gratuitidade (é o que fazem a maioria das mães por causa de seus filhos...). Ser discípulo de Jesus é fazer do amor regra de vida. O importante é amar. Quanto se ama tudo está bem, como dizia S. Agostinho: «Ama e faz o que quiseres...»
AMAS?
David
2005-03-13
«Lázaro, vem para fora».
Quantas vezes seria necessário libertar o Lázaro que mora em nós?
Todos nós guardamos nos arquivos da nossa memória experiências traumatizantes: mal-entendidos, apreciações injustas, sinais de desprezo por parte de outros, etc... Porque esses traumas nos fazem sofrer, evitamos a convivência com as pessoas que estão associadas a esses momentos. Com o decorrer dos anos, vai aumentado a lista daqueles com os quais nada queremos. Às vezes expressamos esse mal-estar quando dizemos que “aquela pessoa, para mim, já morreu!”
Desta forma, o nosso coração assemelha-se a um cemitério onde todos os dias/semanas, são sepultados novos irmãos. A nossa postura perante o outro, o nosso comportamento, denuncia, tantas vezes inconscientemente, a morte que caminha connosco, os Lázaros “malcheirosos” que nos tornam homens e mulheres amargos/as, ressentidos/as e intolerantes.
No Evangelho de hoje, Jesus diz: «Lázaro, vem para fora». Aquilo que parece impossível torna-se realidade: Lázaro vive de novo. Nestes dias de preparação para a grande festa dos cristãos, a Páscoa, oxalá seja também um tempo de libertação/ressurreição dos Lázaros que permanecem enterrados dentro de nós.
Todos nós guardamos nos arquivos da nossa memória experiências traumatizantes: mal-entendidos, apreciações injustas, sinais de desprezo por parte de outros, etc... Porque esses traumas nos fazem sofrer, evitamos a convivência com as pessoas que estão associadas a esses momentos. Com o decorrer dos anos, vai aumentado a lista daqueles com os quais nada queremos. Às vezes expressamos esse mal-estar quando dizemos que “aquela pessoa, para mim, já morreu!”
Desta forma, o nosso coração assemelha-se a um cemitério onde todos os dias/semanas, são sepultados novos irmãos. A nossa postura perante o outro, o nosso comportamento, denuncia, tantas vezes inconscientemente, a morte que caminha connosco, os Lázaros “malcheirosos” que nos tornam homens e mulheres amargos/as, ressentidos/as e intolerantes.
No Evangelho de hoje, Jesus diz: «Lázaro, vem para fora». Aquilo que parece impossível torna-se realidade: Lázaro vive de novo. Nestes dias de preparação para a grande festa dos cristãos, a Páscoa, oxalá seja também um tempo de libertação/ressurreição dos Lázaros que permanecem enterrados dentro de nós.
David
2005-03-09
Um Amor à cruz...
Eu me abandono, ó Deus, nas tuas mãos
Modela este barro, como faz o oleiro.
Dá-lhe forma, e depois, se quiseres,
esmigalha-a como foi esmigalhada a vida de João, meu irmão.
Ordena o que queres que eu faça
e o que queres que não faça.
Elogiado e humilhado, perseguido,
incompreendido e caluniado,
consolado, magoado, inútil para tudo,
só me resta dizer, a exemplo de Tua Mãe:
“Faça-se em mim segundo a Tua palavra”.
Dá-me o amor por excelência,
o amor à Cruz.
Não às cruzes heróicas,
que poderiam despertar em mim o amor próprio, a vã glória;
mas o amor às cruzes de cada dia
que se encontram na contradição,
no esquecimento, no fracasso, nos juízos errados e na indiferença,
na rejeição e no menosprezo dos outros,
no mal-estar e na doença,
nas limitações intelectuais,
e na secura, no silêncio do coração.
Só então Tu saberás que Te amo.
E isso me basta.
(Robert Kennedy)
Modela este barro, como faz o oleiro.
Dá-lhe forma, e depois, se quiseres,
esmigalha-a como foi esmigalhada a vida de João, meu irmão.
Ordena o que queres que eu faça
e o que queres que não faça.
Elogiado e humilhado, perseguido,
incompreendido e caluniado,
consolado, magoado, inútil para tudo,
só me resta dizer, a exemplo de Tua Mãe:
“Faça-se em mim segundo a Tua palavra”.
Dá-me o amor por excelência,
o amor à Cruz.
Não às cruzes heróicas,
que poderiam despertar em mim o amor próprio, a vã glória;
mas o amor às cruzes de cada dia
que se encontram na contradição,
no esquecimento, no fracasso, nos juízos errados e na indiferença,
na rejeição e no menosprezo dos outros,
no mal-estar e na doença,
nas limitações intelectuais,
e na secura, no silêncio do coração.
Só então Tu saberás que Te amo.
E isso me basta.
(Robert Kennedy)
2005-03-07
Construir...
«O Homem só se apercebe, no mundo, daquilo que em si já se encontra; mas precisa do mundo para se aperceber do que se encontra em si; para isso são, porém, necessários actividade e sofrimento».
(Hugo Von HOFMANNSTHAL)
(Hugo Von HOFMANNSTHAL)
2005-03-01
Oração
Silêncio!
A Tua “hora”
Na hora…
E no mistério orante
Do dealbar eterno
E fulgurante
Do meu lar:
“Filho, eis a Tua Mãe”.
João Luís Silva
A Tua “hora”
Na hora…
E no mistério orante
Do dealbar eterno
E fulgurante
Do meu lar:
“Filho, eis a Tua Mãe”.
João Luís Silva
2005-02-22
MEDO?
Uns dias antes das eleições legislativas, encontrei algumas pessoas muito ligadas à Igreja que temiam a vitória dos partidos de esquerda, sobretudo se o principal partido, o PS, se aliasse à esquerda radical. Homens e mulheres, inclusive consagrado/as, temiam as reformas laicizantes, as perseguições de um governo liderado por gente sem fé.
A vitoria do PS veio dar mais força à essa onda de temor. Contudo, parece-me que essa não é, nem deve ser, a nossa atitude. Em primeiro lugar porque o medo é paralizante, faz-nos viver na defensiva, como infelizes que esperam a má sorte dos outros. Essa é uma atitude pouco evangélica. Por outro lado, que há a temer? Que nos tirem as casas?, que se apoderem das nossas instituições?, que nos insultem na praça pública? Mas nada disso seria uma novidade, só que esquecemos que seguir Jesus significa desprender-se de tudo, inclusive daquilo que julgamos vital, e predispor-se para subir ao calvário onde seremos, como Jesus, crucificados.
Mais do que temer, é de pedir a Deus que esse tempo chegue de novo e de preferência o mais depressa possível, antes que este estado «morno» de gente satisfeita e contente tudo queime até as raízes mais profundas do cristianismo na nossa sociedade. Que venham essas revoluções que e nos obriguem a tomar as decisões que por conveniência não fomos capazes de tomar. Que apareçam esses “revolucionários” que nos reduzam a menos da metade e deixem apenas «um pequeno resto» de seguidores sem medo. Seria, provavelmente, um novo começo... a Igreja seria mais humilde, menos institucional, mas mais carismática. E isso seria bom...
David
A vitoria do PS veio dar mais força à essa onda de temor. Contudo, parece-me que essa não é, nem deve ser, a nossa atitude. Em primeiro lugar porque o medo é paralizante, faz-nos viver na defensiva, como infelizes que esperam a má sorte dos outros. Essa é uma atitude pouco evangélica. Por outro lado, que há a temer? Que nos tirem as casas?, que se apoderem das nossas instituições?, que nos insultem na praça pública? Mas nada disso seria uma novidade, só que esquecemos que seguir Jesus significa desprender-se de tudo, inclusive daquilo que julgamos vital, e predispor-se para subir ao calvário onde seremos, como Jesus, crucificados.
Mais do que temer, é de pedir a Deus que esse tempo chegue de novo e de preferência o mais depressa possível, antes que este estado «morno» de gente satisfeita e contente tudo queime até as raízes mais profundas do cristianismo na nossa sociedade. Que venham essas revoluções que e nos obriguem a tomar as decisões que por conveniência não fomos capazes de tomar. Que apareçam esses “revolucionários” que nos reduzam a menos da metade e deixem apenas «um pequeno resto» de seguidores sem medo. Seria, provavelmente, um novo começo... a Igreja seria mais humilde, menos institucional, mas mais carismática. E isso seria bom...
David
2005-02-09
Hino de inicio da Quaresma
Benigno Criador, ouvi clemente
As nossas orações e o nosso pranto;
Neste sagrado tempo da Quaresma,
Compadecido olhai-nos, ó Deus Santo.
Justíssimo juiz das nossas almas,
Vós conheceis a enfermidade humana:
Voltando para vós arrependidos,
Pedimos a vossa graça soberana.
Confessamos que somos pecadores,
Mas, em vez de castigo, perdoai-nos.
Por vosso nome santo e vossa glória,
Da nossa vil miséria libertai-nos.
Aceitai o jejum e a penitência
Que em nossa própria carne suportamos;
Por eles, as nossas almas se libertem
Dos erros e misérias que choramos.
Estas nossas humildes oferendas
Aceitai, ó Santíssima Trindade,
E levai-nos, no amor purificados,
Ao esplendor da vossa eternidade.
As nossas orações e o nosso pranto;
Neste sagrado tempo da Quaresma,
Compadecido olhai-nos, ó Deus Santo.
Justíssimo juiz das nossas almas,
Vós conheceis a enfermidade humana:
Voltando para vós arrependidos,
Pedimos a vossa graça soberana.
Confessamos que somos pecadores,
Mas, em vez de castigo, perdoai-nos.
Por vosso nome santo e vossa glória,
Da nossa vil miséria libertai-nos.
Aceitai o jejum e a penitência
Que em nossa própria carne suportamos;
Por eles, as nossas almas se libertem
Dos erros e misérias que choramos.
Estas nossas humildes oferendas
Aceitai, ó Santíssima Trindade,
E levai-nos, no amor purificados,
Ao esplendor da vossa eternidade.
(Rufino Grández)
2005-02-02
A Odisseia das frequências
São dias de retiro... vive-se fechados em casa, lendo textos que já foram lidos, memorizando ideias chaves, roendo unhas e tentando prever o que há-de sair nas frequências. No silêncio de cada quarto, para cada um de nós, há uma batalha que se trava e um novo mundo que se abre. Para manter a esperança, cada dia renovamos o compromisso de lutar até ao fim e juramos que tudo faremos para descobrir aquilo que nunca ninguém descobriu.
Os dias são contados. Alguns passeios foram adiados, as conversas abreviadas e as partidas de ténis de mesa limitadas porque é preciso estar no quarto. O tempo demora a passar. Na secretária, as matérias sucedem-se como os santos numa procissão. E lá virá o dia da sentença: «mais um 16? O prof. foi generoso!».
É a odisseia das frequências. Um tempo agridoce que lenta e discretamente nos transforma em Homens mais maduros. E, confesso, acho que é um tempo com piada, pois a vida de estudante sem frequências seria de um tédio insuportável, uma aventura previsível e um desafio sem obstáculos.
Os dias são contados. Alguns passeios foram adiados, as conversas abreviadas e as partidas de ténis de mesa limitadas porque é preciso estar no quarto. O tempo demora a passar. Na secretária, as matérias sucedem-se como os santos numa procissão. E lá virá o dia da sentença: «mais um 16? O prof. foi generoso!».
É a odisseia das frequências. Um tempo agridoce que lenta e discretamente nos transforma em Homens mais maduros. E, confesso, acho que é um tempo com piada, pois a vida de estudante sem frequências seria de um tédio insuportável, uma aventura previsível e um desafio sem obstáculos.
David
Contemplação...
Vinha de noite
E trazia a noite
A crepitar notícias de espanto
Nesta alegria de Te reconhecer
No transbordar da vida
No umbral da contemplação
Na centelha luminosa
Que em mim ecoou:
“Tens de nascer de novo
Num tempo que não volta atrás”
João Luis Silva
E trazia a noite
A crepitar notícias de espanto
Nesta alegria de Te reconhecer
No transbordar da vida
No umbral da contemplação
Na centelha luminosa
Que em mim ecoou:
“Tens de nascer de novo
Num tempo que não volta atrás”
João Luis Silva
2005-01-29
O Alpinista
«Contam que um alpinista, desesperado por conquistar uma altíssima montanha, iniciou a sua escalada depois de anos de preparação. Como queria a glória só para ele, resolveu subir sem companheiros.
Durante a subida, a noite caiu, mas ele não estava preparado para acampar, por isso, decidiu continuar a subir... até escurecer. A noite era muito densa naquele ponto da montanha, e não se podia ver absolutamente nada. Tudo era negro, a lua e as estrelas estavam encobertas pelas nuvens. Ao subir por um caminho estreito, a apenas poucos metros do topo, escorregou e precipitou-se pelos ares, caindo a uma velocidade vertiginosa. O Alpinista via apenas velozes manchas escuras passando por ele e sentia a terrível sensação de estar sendo sugado pela gravidade.
Continuava a cair... e nos seus angustiantes momentos, passaram pela sua mente alguns episódios felizes e outros tristes de sua vida. Pensava na proximidade da morte, sem solução...
De repente, sentiu um fortíssimo solavanco, causado pelo esticar da corda na qual estava amarrado e presa estacas cravadas na montanha. Nesse momento de silêncio e solidão, suspenso no ar, não havia nada que pudesse fazer e gritou com todas as suas forças:
MEU DEUS, AJUDA-ME !!!
De repente, uma voz grave e profunda vinda dos céus respondeu-lhe:
QUE QUERES QUE EU TE FAÇA?
Salva-me meu DEUS !!!
REALMENTE CRÊS QUE EU TE POSSO SALVAR?
Com toda certeza Senhor !!!
ENTÃO CORTA A CORDA NA QUAL ESTÁS AMARRADO...
Houve um momento de silêncio; então o homem agarrou-se ainda mais fortemente à corda...
Conta a equipe de resgate, que no outro dia encontraram o alpinista morto, congelado pelo frio, com as mãos agarradas à corda... APENAS A DOIS METROS DO CHÃO...
E tu, cortarias a corda?»
2005-01-22
Compreender a vontade de Deus...
«Quando uma pessoa morre há muita coisa que se pode dizer sobre ela mas também há algo que nunca se deve dizer...
Na noite em que o meu filho Alex morreu, uma senhora veio-nos mostrar a sua simpatia trazendo com ela 18 quiches e dizendo com tristeza "Nunca conseguirei compreender a vontade de Deus."
Eu explodi. " Ó minha senhora! Tenho a certeza que nunca irá compreender. Então a senhora pensa que foi a vontade de Deus que fez com que o meu Alex nunca tivesse substituído a porcaria do pára-brisas, ou que fez com que ele viesse em grande velocidade durante a tempestade, ou que fez com que ele bebesse umas cervejas a mais? Ou pensa então que é a vontade de Deus que não haja luzes na estrada ou que não exista protecção na curva entre a estrada e a baía de Boston?"
Não há nada que me exaspere mais do que a incapacidade de pessoas, aparentemente inteligentes, em compreenderem que Deus não anda neste mundo com o dedo no gatilho, de navalha aberta no seu punho, ou com as suas mãos nos volantes. As mortes precoces, lentas, cheias de dor, levantam questões às quais não encontramos respostas... Nunca teremos conhecimentos suficientes para podermos afirmar que tal morte foi da vontade de Deus...
A minha única consolação resta em que acredito que não foi da vontade do Pai a morte do meu Alex; que quando as ondas do mar cobriram o automóvel, o coração de Deus foi, antes dos nossos, o primeiro coração a despedaçar-se.»
Rev. William Sloan Coffin no dia do funeral de seu filho, Alex de 24 anos de idade.
Na noite em que o meu filho Alex morreu, uma senhora veio-nos mostrar a sua simpatia trazendo com ela 18 quiches e dizendo com tristeza "Nunca conseguirei compreender a vontade de Deus."
Eu explodi. " Ó minha senhora! Tenho a certeza que nunca irá compreender. Então a senhora pensa que foi a vontade de Deus que fez com que o meu Alex nunca tivesse substituído a porcaria do pára-brisas, ou que fez com que ele viesse em grande velocidade durante a tempestade, ou que fez com que ele bebesse umas cervejas a mais? Ou pensa então que é a vontade de Deus que não haja luzes na estrada ou que não exista protecção na curva entre a estrada e a baía de Boston?"
Não há nada que me exaspere mais do que a incapacidade de pessoas, aparentemente inteligentes, em compreenderem que Deus não anda neste mundo com o dedo no gatilho, de navalha aberta no seu punho, ou com as suas mãos nos volantes. As mortes precoces, lentas, cheias de dor, levantam questões às quais não encontramos respostas... Nunca teremos conhecimentos suficientes para podermos afirmar que tal morte foi da vontade de Deus...
A minha única consolação resta em que acredito que não foi da vontade do Pai a morte do meu Alex; que quando as ondas do mar cobriram o automóvel, o coração de Deus foi, antes dos nossos, o primeiro coração a despedaçar-se.»
Rev. William Sloan Coffin no dia do funeral de seu filho, Alex de 24 anos de idade.
2005-01-15
Imprevistos
Era um final de dia como tantos outros não fosse obrigado a mudar de trajecto no regresso a casa para visitar um amigo que estava no hospital. Já fazia muito tempo que não entrava num desses edifícios, tão úteis à sociedade, mas que evito sempre que posso.
Naquela tarde, meio apressado, vi-me forçado a inalar aquele cheiro tão característico dos hospitais à procura, entre salas e camas, do JP. Encontrei-o deitado, rodeado de máquinas, com um “ar de transe” e com uma cor de pele que não parecia ser a sua. Trocámos um olhar, um sorriso amarelo, poucas palavras e senti em mim crescer um sentimento de impotência, de algum desespero e até de revolta. O JP é ainda jovem mas, por razões que nem a ciência sabe, despede-se da vida.
No regresso a casa, nessa tarde, a imagem do JP parecia caminhar à minha frente. Talvez por isso, resolvi andar pé, em vez de apanhar o metro. Caminhava por uma rua que desconhecia totalmente, mas avançava em direcção a um pôr-de-sol que, em Lisboa, nunca tinha visto igual. E foi nesses instantes, como que hipnotizado pelo sol, nesse caminho de regresso a casa, que compreendi a inutilidade de uma vida rotineira e sem paixão... Não fosse aquela visita e a contemplação da forma como o sol se despedia, esse dia teria sido igual aos outros tantos dias do ano.
E desejei ser livre para dar mais tempo aos imprevistos que a vida me oferece. Arrependi-me de usar relógio, essa máquina opressora que me escraviza, e prometi a mim mesmo que, nessa noite, havia de queimar a agenda.
David
2005-01-05
Andante
Na vertigem do tempo
Amarrado à secura da sorte,
Como cárcere deserdado
Trazia na sede
A profana réstia
De ser coágulo andante.
Lentamente,
Aninhei-me na cisterna,
Do deserto dessa tarde,
Bamboleando a vida
Que se fez “Notícia Nova”,
Na profecia submersa
Do Teu: “Dá-me de beber”.
João Luis Silva
Amarrado à secura da sorte,
Como cárcere deserdado
Trazia na sede
A profana réstia
De ser coágulo andante.
Lentamente,
Aninhei-me na cisterna,
Do deserto dessa tarde,
Bamboleando a vida
Que se fez “Notícia Nova”,
Na profecia submersa
Do Teu: “Dá-me de beber”.
João Luis Silva
2004-12-23
Coro de S. Tomás de Aquino nas ruas da cidade
Tem sido umas de iniciativas com sucesso levada a cabo por membros da paróquia de S. Tomás de Aquino em pareceria com as comunidades religiosas existentes na área: Vicentinos, S. João de Deus, Missionários do Verbo Divino e Baptistas. A iniciativa está integrada nas mil e uma acção em vista a preparação do congresso sobre a Nova Evangelização.
Cerca de 30 paroquianos, dirigidos pelo Pe. Américo dos Missionários do Verbo Divino, entoam canções de Natal de cariz popular, como “É Natal, é Natal” e “Noite Feliz”. A iniciativa principiou com um recital junto à loja do cidadão (Estrada da Luz) e prolonga-se para depois do Natal em vários locais da Paróquia.
Esta oferta aos cidadãos por parte da Paróquia de S. Tomás de Aquino foi uma das fórmulas encontradas para celebrar o Natal de uma forma solidária.
A todos aqueles que têm participado, o nosso obrigado.
David
Cerca de 30 paroquianos, dirigidos pelo Pe. Américo dos Missionários do Verbo Divino, entoam canções de Natal de cariz popular, como “É Natal, é Natal” e “Noite Feliz”. A iniciativa principiou com um recital junto à loja do cidadão (Estrada da Luz) e prolonga-se para depois do Natal em vários locais da Paróquia.
Esta oferta aos cidadãos por parte da Paróquia de S. Tomás de Aquino foi uma das fórmulas encontradas para celebrar o Natal de uma forma solidária.
A todos aqueles que têm participado, o nosso obrigado.
David
2004-12-21
Litania para o Natal
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos pedir contas do nosso tempo
(David Mourão-Ferreira)
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos pedir contas do nosso tempo
(David Mourão-Ferreira)
2004-12-11
Os números da morte (1ª parte)
É assustador e triste o relatório da UNICEF publicado nestes dias sobre O Estado Mundial das Crianças – 2005. Diz-nos o relatório que a «a infância está ameaçada», que a maioria das crianças do mundo são vitimas da pobreza, da guerra e da SIDA. Os números falam por si: uma em cada duas crianças não vive como merece. Alguns números:
Mortalidade: Em 2003, quase 11 milhões de crianças morreram no mundo antes de completarem cinco anos.
Mortalidade: Em 2003, quase 11 milhões de crianças morreram no mundo antes de completarem cinco anos.
Pobreza: Quase dois mil milhões de crianças vivem em países em desenvolvimento. Do total de menores que morrem no mundo antes de atingir os cinco anos, 42 por cento vivem na região da África subsariana.
Órfãos: O número de órfãos devido à doença (particularmente a SIDA) não pára de aumentar. No relatório «Progressos para as crianças», a UNICEF alerta para o crescimento do número (15 milhões) de menores que são institucionalizados por perderem os pais.
Guerras: Desde 1990 morreram 3,6 milhões de pessoas em situações de guerra, metade destas eram crianças. Para este cenário contribuiu o início da guerra do Iraque. No início da década, 50 em cada mil menores perderam a vida neste conflito. Na República Democrática do Congo, nos últimos cinco anos, 20 mil rapazes e raparigas foram transformados em soldados.
Órfãos: O número de órfãos devido à doença (particularmente a SIDA) não pára de aumentar. No relatório «Progressos para as crianças», a UNICEF alerta para o crescimento do número (15 milhões) de menores que são institucionalizados por perderem os pais.
Guerras: Desde 1990 morreram 3,6 milhões de pessoas em situações de guerra, metade destas eram crianças. Para este cenário contribuiu o início da guerra do Iraque. No início da década, 50 em cada mil menores perderam a vida neste conflito. Na República Democrática do Congo, nos últimos cinco anos, 20 mil rapazes e raparigas foram transformados em soldados.
Tráfico: 1,2 milhões de crianças são vítimas de tráfico todos os anos. São retiradas das famílias e submetidas a uma situação de escravatura. A prostituição infantil não pára de aumentar. Dois milhões, a maioria raparigas, são sexualmente exploradas. Na Indonésia, são traficadas cem mil crianças e mulheres todos os anos.
Escolaridade: Segundo o relatório sobre a Situação Mundial da Infância divulgado em 2003 pela UNICEF, existem 121 milhões de menores que não têm ainda acesso ao ensino. A esmagadora maioria vive ao sul do Sara. No ano lectivo de 2003/2004, foram fechadas 580 escolas na Palestina (Para mais detalhes, ver http://www.unicef.org/)
Como homem, como cristão, como vicentino não posso não sentir uma forte dose de incómodo e até alguns remorsos por esta situação. Sinto que é urgente fazer alguma coisa. Lembro-me daquela frase tantas vezes repetida de S. Vicente de Paulo: «amemos a Deus, amemos a Deus, mas que seja com o suor do nosso rosto e a força dos nossos braços».
Sinto que é preciso ir mais longe: que as nossas orações nos empurrem para o pé daqueles que sofrem; que sejamos, pelo menos, fomentadores na nossa sociedade de grupos de pressão que obriguem os governantes a dar mais atenção àqueles que são os mais desfavorecidos; que cada um de nós seja um João Baptista, um denunciador das «hipocrisias» da nossa sociedade; que neste advento, neste Natal não deixemos que a Boa Nova fique “entalada” nas paredes das nossas igrejas; que o Verbo se faça carne em nós, o Verbo que também assumiu ser pobre, que nos abra os olhos, inspire as nossas palavras para, sem temor, colaborarmos na construção do Reino de Deus, a sociedade que Deus quer...
David
Escolaridade: Segundo o relatório sobre a Situação Mundial da Infância divulgado em 2003 pela UNICEF, existem 121 milhões de menores que não têm ainda acesso ao ensino. A esmagadora maioria vive ao sul do Sara. No ano lectivo de 2003/2004, foram fechadas 580 escolas na Palestina (Para mais detalhes, ver http://www.unicef.org/)
Como homem, como cristão, como vicentino não posso não sentir uma forte dose de incómodo e até alguns remorsos por esta situação. Sinto que é urgente fazer alguma coisa. Lembro-me daquela frase tantas vezes repetida de S. Vicente de Paulo: «amemos a Deus, amemos a Deus, mas que seja com o suor do nosso rosto e a força dos nossos braços».
Sinto que é preciso ir mais longe: que as nossas orações nos empurrem para o pé daqueles que sofrem; que sejamos, pelo menos, fomentadores na nossa sociedade de grupos de pressão que obriguem os governantes a dar mais atenção àqueles que são os mais desfavorecidos; que cada um de nós seja um João Baptista, um denunciador das «hipocrisias» da nossa sociedade; que neste advento, neste Natal não deixemos que a Boa Nova fique “entalada” nas paredes das nossas igrejas; que o Verbo se faça carne em nós, o Verbo que também assumiu ser pobre, que nos abra os olhos, inspire as nossas palavras para, sem temor, colaborarmos na construção do Reino de Deus, a sociedade que Deus quer...
David
2004-12-06
Encontro...
No definhar dos dias
A vida toldava-se
No exílio das minhas buscas.
Cada vulto emaranhava-se
Num trépido e rude contentamento
Como ciclone langoroso.
Ao longe... mas dentro
Ouvi a mensagem.
Desabotoei-me do labirinto
Como quem queima horas
E parti...
Só queria ver-Te!
Subi e contemplei...
Eras tudo!...
Neste jubilo inextinguivel
Duma pequenês faminta
Banhada de incertezas.
E fiquei
No patibulo das mudanças
Como candeia dormideira
À espera
Que as palpebras se fechassem...
Mas o sono dissipou-se
No braseiro desse convite
Incondicionável de AMOR:
"Amigo, desce depressa,
preciso de ficar em tua casa."
João Luís Silva
A vida toldava-se
No exílio das minhas buscas.
Cada vulto emaranhava-se
Num trépido e rude contentamento
Como ciclone langoroso.
Ao longe... mas dentro
Ouvi a mensagem.
Desabotoei-me do labirinto
Como quem queima horas
E parti...
Só queria ver-Te!
Subi e contemplei...
Eras tudo!...
Neste jubilo inextinguivel
Duma pequenês faminta
Banhada de incertezas.
E fiquei
No patibulo das mudanças
Como candeia dormideira
À espera
Que as palpebras se fechassem...
Mas o sono dissipou-se
No braseiro desse convite
Incondicionável de AMOR:
"Amigo, desce depressa,
preciso de ficar em tua casa."
João Luís Silva
2004-12-04
Martinho o sapateiro
João Batista era um homem muito prático. Também o cristianismo é uma religião muito social e prática. Não diz respeito só à ligação entre mim e Deus mas à ligação entre Deus, eu e os outros.
Há uma história muito antiga acerca de um sapateiro de nome Martinho que vivia e trabalhava na cela de um velho edifício. A sua única janela, baixa que era, ainda lhe deixava ver os pés das pessoas que passavam pela rua. Martinho vivia abaixo do nível do solo. Mas, como em geral, quase todos os sapatos ou botas lhe passavam pelas mãos, ele era capaz de identificar os seus possuidores.
A vida tinha sido dura para o nosso sapateiro. Sua mulher tinha morrido deixando-o com um filho ainda pequeno. Depois, quando o menino parecia ter chegado à idade de ajudar o pai, adoeceu e morreu. Martinho ficou devastado. Ao enterrar o seu filho abandonou-se ao desespero, ao mesmo tempo que deixava a sua religião e mergulhava no álcool.
Um dia, um velho amigo veio visitá-lo. Martinho abriu-se e contou a sua triste história. Seu amigo aconselhou-o a que lesse um bocadinho dos evangelhos todos os dias, prometendo-lhe que se o fizesse a luz e a esperança voltariam de novo à sua vida.
Martinho aceitou o conselho e no fim de cada dia tirava o livro dos evangelhos da prateleira e lia um bocadinho. Ao princípio fez ideia de ler somente aos domingos mas, encontrando tanta ajuda neles, começou a lê-los todos os dias. A pouco e pouco as suas perspectivas começaram a mudar. A esperança voltou novamente aos seus olhos e ao seu coração.
Certa noite, enquanto lia, pareceu-lhe que alguém o tinha chamado: “Martinho, Martinho, olha amanhã para a rua, pois eu virei visitar-te.” Olhou para todos os lados e como não visse ninguém no seu pobre tugúrio pensou que tinha sido o Senhor que lhe tinha dirigido estas palavras.
Na manhã seguinte, ao sentar-se no seu banco para trabalhar, sentiu uma excitação enorme dentro dele. Enquanto trabalhou manteve sempre um rápido olhar na janela. Perscrutou bem todo o par de sapatos e botas que por ela passaram, procurando algum que não conhecesse ou que lhe parecesse fora do normal. Bem procurou algo de especial mas só por lá passaram os que normalmente o faziam todos os dias.
À tarde reparou num par de botas que se tinham encostado à sua janela. Eram dum velho soldado seu conhecido chamado Estêvão. Levantou-se para melhor descortinar e viu o velho a esfregar as mãos tremendo, pois fazia um frio medonho naquele dia. Martinho bem pediu a todos os seus santos que tirassem o velhote da frente da janela. Tinha medo que chegasse o prometido e ele não fosse capaz de o ver. Mas depois lembrou-se da pobreza extrema de Estêvão e de que se calhar estava assim pois nada tinha comido todo o dia. Bateu nos vidros da janela e fez sinal para que viesse abaixo até ao seu quarto. O velho soldado agradeceu-lhe encarecidamente e perante o chá e o pão que Martinho lhe serviu confessou que em dois dias nada tinha comido. Quando o velhote partiu o nosso sapateiro deu-lhe o seu segundo casaco. Como ainda tinha dois e o velhote nenhum, e o frio era enorme, resolveu que faria melhor nos ossos daquele pobre do que pendurado atrás da porta. No entanto, durante todo o tempo em que entreteve o soldado, Martinho não parou de olhar para a janela tentando identificar os sapatos e os seus donos.
Anoiteceu e Martinho parou de trabalhar e, cheio de tristeza, resolveu fechar os taipais da sua janela. Depois de comer algo , tirou da prateleira o livro dos evangelhos e, como era hábito seu, começou a lêr os evangelhos. Deparou com a seguinte passagem: ‘Vieram a João e perguntaram-lhe “Que havemos de fazer?” E ele respondeu “Quem tem dois mantos que dê um a quem não tem e quem tem que comer que faça o mesmo.”’
Martinho começou a reflectir sobre esta passagem. Compreendeu então que afinal o Senhor tinha vindo até ele na pessoa do velho Estêvão, e que ele, pobre como era, ainda tinha arranjado tempo e conforto para o acolher. O seu coração inundou-se de uma alegria como nunca tinha sentido.
Martinho já tinha recebido na sua vida Cristo pela leitura atenta que fazia dos evangelhos. Assim a segunda etapa chegou-lhe de maneira natural: a de fazer lugar na sua vida para o irmão necessitado.
Há uma história muito antiga acerca de um sapateiro de nome Martinho que vivia e trabalhava na cela de um velho edifício. A sua única janela, baixa que era, ainda lhe deixava ver os pés das pessoas que passavam pela rua. Martinho vivia abaixo do nível do solo. Mas, como em geral, quase todos os sapatos ou botas lhe passavam pelas mãos, ele era capaz de identificar os seus possuidores.
A vida tinha sido dura para o nosso sapateiro. Sua mulher tinha morrido deixando-o com um filho ainda pequeno. Depois, quando o menino parecia ter chegado à idade de ajudar o pai, adoeceu e morreu. Martinho ficou devastado. Ao enterrar o seu filho abandonou-se ao desespero, ao mesmo tempo que deixava a sua religião e mergulhava no álcool.
Um dia, um velho amigo veio visitá-lo. Martinho abriu-se e contou a sua triste história. Seu amigo aconselhou-o a que lesse um bocadinho dos evangelhos todos os dias, prometendo-lhe que se o fizesse a luz e a esperança voltariam de novo à sua vida.
Martinho aceitou o conselho e no fim de cada dia tirava o livro dos evangelhos da prateleira e lia um bocadinho. Ao princípio fez ideia de ler somente aos domingos mas, encontrando tanta ajuda neles, começou a lê-los todos os dias. A pouco e pouco as suas perspectivas começaram a mudar. A esperança voltou novamente aos seus olhos e ao seu coração.
Certa noite, enquanto lia, pareceu-lhe que alguém o tinha chamado: “Martinho, Martinho, olha amanhã para a rua, pois eu virei visitar-te.” Olhou para todos os lados e como não visse ninguém no seu pobre tugúrio pensou que tinha sido o Senhor que lhe tinha dirigido estas palavras.
Na manhã seguinte, ao sentar-se no seu banco para trabalhar, sentiu uma excitação enorme dentro dele. Enquanto trabalhou manteve sempre um rápido olhar na janela. Perscrutou bem todo o par de sapatos e botas que por ela passaram, procurando algum que não conhecesse ou que lhe parecesse fora do normal. Bem procurou algo de especial mas só por lá passaram os que normalmente o faziam todos os dias.
À tarde reparou num par de botas que se tinham encostado à sua janela. Eram dum velho soldado seu conhecido chamado Estêvão. Levantou-se para melhor descortinar e viu o velho a esfregar as mãos tremendo, pois fazia um frio medonho naquele dia. Martinho bem pediu a todos os seus santos que tirassem o velhote da frente da janela. Tinha medo que chegasse o prometido e ele não fosse capaz de o ver. Mas depois lembrou-se da pobreza extrema de Estêvão e de que se calhar estava assim pois nada tinha comido todo o dia. Bateu nos vidros da janela e fez sinal para que viesse abaixo até ao seu quarto. O velho soldado agradeceu-lhe encarecidamente e perante o chá e o pão que Martinho lhe serviu confessou que em dois dias nada tinha comido. Quando o velhote partiu o nosso sapateiro deu-lhe o seu segundo casaco. Como ainda tinha dois e o velhote nenhum, e o frio era enorme, resolveu que faria melhor nos ossos daquele pobre do que pendurado atrás da porta. No entanto, durante todo o tempo em que entreteve o soldado, Martinho não parou de olhar para a janela tentando identificar os sapatos e os seus donos.
Anoiteceu e Martinho parou de trabalhar e, cheio de tristeza, resolveu fechar os taipais da sua janela. Depois de comer algo , tirou da prateleira o livro dos evangelhos e, como era hábito seu, começou a lêr os evangelhos. Deparou com a seguinte passagem: ‘Vieram a João e perguntaram-lhe “Que havemos de fazer?” E ele respondeu “Quem tem dois mantos que dê um a quem não tem e quem tem que comer que faça o mesmo.”’
Martinho começou a reflectir sobre esta passagem. Compreendeu então que afinal o Senhor tinha vindo até ele na pessoa do velho Estêvão, e que ele, pobre como era, ainda tinha arranjado tempo e conforto para o acolher. O seu coração inundou-se de uma alegria como nunca tinha sentido.
Martinho já tinha recebido na sua vida Cristo pela leitura atenta que fazia dos evangelhos. Assim a segunda etapa chegou-lhe de maneira natural: a de fazer lugar na sua vida para o irmão necessitado.
O Advento urge que preparemos os caminhos do Senhor. Não há melhor preparação do que abrir os nossos corações e o nosso espírito a quem necessita de nós. A melhor maneira de encontrarmos a bondade, a paz e a felicidade é a de nos esquecermos de nós próprios e de termos o outro, o irmão, sempre no nosso pensamento e nas nossas vidas.
Adapatdo de MACcARTHY, F., in New Sunday.
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