2005-06-27

“FELIZES SEREIS VÓS QUANDO...”

Felizes os que sabem rir de si próprios: nunca deixarão de se divertir.
Felizes os que sabem distinguir uma montanha de um grão de areia: evitarão muitos aborrecimentos.
Felizes os que não se vangloriam para não se levarem muito a sério:
serão estimados pelos os que os rodeiam.
Felizes os que sabem olhar com seriedade para as pequenas coisas, e com a paz para as coisas importantes: chegarão longe na vida.
Felizes os que sabem admirar um sorriso e esquecer uma afronta: no seu caminho haverá sempre sol.
Felizes os que pensam antes de agir, e os que rezam antes de pensar: evitarão muitas asneiras.
Felizes os que sabem calar e sorrir mesmo quando lhes tiram a palavra, os contradizem e amesquinham: o Evangelho começa a penetrar no seu coração

2005-06-13

«Dai-lhes Senhor o Eterno descanso...»

Na madrugada deste dia 13 de Junho, festa de Santo António, Portugal veste-se de luto pela morte de duas ilustres figuras que marcaram o história portuguesa na segunda metade do século XX: Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade.

Álvaro Cunhal

É digna de memória a postura coerente e corajosa do ex-dirigente do PCP português, Álvaro Cunhal. Homem inteligente e dotado, Álvaro Cunhal destacou-se fundamentalmente pela sua luta antifascista. As teses por ele defendidas (o comunismo na sua essências) não são muito diferentes daquilo que a Igreja defende. Contudo, os meios para alcançar esses fins – maior justiça social, a promoção das classes desfavorecidas – diferem substancialmente.

Eugénio de Andrade

AS GAIVOTAS

«As gaivotas. Vão e vêm. Entram
Pela pupila.
Por fim o mar.
Não tardará a fadiga da alma.
De tanto olhar, tanto
Olhar. »

Eugénio de Andrade é um dos poetas mais lidos e apreciados quer em Portugal, quer no estrangeiro. Deixa-nos uma obra imensa...

«Dai-lhes Senhor o Eterno descanso...»

David

2005-06-10

ouve amigo...

A propósito do fim de semana prolongado, do sol, do cheiro a férias que se torna cada vez mais intenso... lembrei-me de te dizer, como outrora disse o Poeta Júlio Roberto:

«Ouve meu amigo,
não penses que a vida é apenas lutar
e sofrer para sobreviver.

A vida é também ser,
é sobretudo amar, sorrir,
cheirar uma flor,
ter algures um grande amor.

Correr pelos prados com uma canção na boca
e uma estrela no olhar.
Ouvir os pássaros a cantar
e gostar dos grilos a conversar.

A vida é também parar
escutar o som do vento
ver a espuma do mar.

Ter a mão nos cabelos de qualquer amor.

Fazer festas a uma criança
abrir a boca e dizer: Ah!,
são os foguetes que vão no ar.

A vida é tudo e nada.

E a alma da gente é como um lago
com cisnes e nenúfares,
e é também cantar para ti
esta canção de embalar.

Não te percas,
não sejas sério demais
não te deixes apanhar.

Anda, vem comigo,
vamos ver as conchas do mar...»

Bom fim de semana,

David

2005-05-24

Fracasso

Quanto supus ser vitória é fumo apenas.

Fracasso, linguagem do fundo, pista de outro espaço mais exigente, difícil de entreler é tua letra.

Quando punhas tua marca em minha fronte, nunca pensei na
mensagem que trazias, mais preciosa que todos os triunfos.
Teu rosto chamejante perseguiu-me e eu não soube que era para salvar-me
Para meu bem desterraste-me para lugares recônditos, negaste-me
êxitos fáceis, cortaste-me saídas.
Era a mim que querias defender ao não me conceder brilho.
De puro amor por mim manejaste o vazio que tantas noites me fez
falar febril a uma ausente.
Para proteger-me deixaste passar outros, fizeste que uma mulher prefira alguém mais ousado, afastaste-me de ofícios suicidas.

Vieste sempre dar a cara.

Sim, teu corpo chagado, cuspido, odioso, recebeu-me na minha
mais pura forma para me entregar à nitidez do deserto.
Por loucura amaldiçoei-te, maltratei-te, blasfemei contra ti.

Tu não existes.
Foste inventando pela soberba delirante.

Quanto te devo!
Levantaste-me a um novo nível limpando-me com uma áspera
esponja, lançando-me para o meu verdadeiro campo de bata-lha,
cedendo-me as armas que o triunfo abandona.

Levaste-me pela mão à única água que me reflecte.
Por ti não conheço a angústia de representar um papel, manter-me
à força num alto, trepar com esforços próprios, discutir
por causa de hierarquias, inchar até rebentar.
Fizeste-me humilde, silencioso e rebelde.
Não te canto pelo que és, mas pelo que não me deixaste ser. Por
não me dares outra vida. Por me teres diminuído.

Ofereceste-me somente nudez.
É verdade que me ensinaste com dureza e tu mesmo trazias o cautério!,
mas também me deste a alegria de não te recear.
Obrigado por me tirares espessura em troca de uma letra grande.

Obrigado a ti, que me privaste de vaidades.
Obrigado pela riqueza a que me obrigaste.
Obrigado por me construir com meu barro a minha morada.
Obrigado por me afastares.
Obrigado.

(Rafael Cadenas)

2005-05-12

A Mão no Arado

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs de verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte
É triste no Outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gente com que
montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos do amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
a atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente
(Ruy Belo)

2005-05-08

Ascensão e Missão

Trinta e três anos após a sua descida à terra, Jesus sob aos céus e entra de novo em casa. O anjo Gabriel ao vê-lO passar surpreende-se por tão inesperada chegada. Trinta e três anos não era o tempo suficiente para Jesus cumprir com a importante tarefa de lançar os fundamentos do Reino de Deus.
«Já de volta?» disse o anjo a Jesus.
«Bem... Eu gostaria de ter ficado por mais uns tempos, mas eles condenaram-me à morte e crucificaram-me», respondeu-lhe Jesus.
«Oh! Crucificaram-te?!», disse o anjo, «então isso significa que fracassastes...»
«Não necessariamente», acrescentou Jesus. «Sabes, Eu chamei e congreguei um pequeno grupo de discípulos. Eles irão agora prosseguir a minha missão».
«E se eles falharem?» perguntou o anjo.
«Eu não pensei nisso... não tenho outros planos. Eu confio neles...»

Já pensastes nessa missão que como discípulo estás chamado a realizar?

(David)

2005-04-28

A IGREJA É A MINHA CASA

A propósito da eleição do Papa Bento XVI e de algumas reacções menos «católicas» mesmo no seio da Igreja, lembrei-me do que há uns anos atrás escrevia o bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. O Texto é, certamente, conhecido, mas deixo-o neste espaço... (David)

Sim, é a minha casa,
Esta Igreja onde eu nasci e quero morrer...
Nela me sinto bem. Nela gosto de estar!
Aqui, eu penso, projecto, sonho, alimento-me...
Aqui, rezo, recordo, choro, zango-me, encontro-me...
Aqui sofro... aqui canto...
A Igreja é a minha casa
Gostaria, tantas vezes, de a ver
Mais acolhedora...
Mais aberta...
Com mais espaços para pessoas outras
(não é ela comunhão e sacramento?),
Mais gratuita...
Mais convidativa...

A Igreja é a minha casa
E tenho pena que, às vezes,
Feche portas,
Condene sem coração,
Corte com quem procura...
Eu amo muito a Igreja... porque
A Igreja é a minha casa...
Com defeitos?
Com a ruga dos anos?
Às vezes azeda?...
Então, porque lhe quero muito,
Vou pintá-la de fresco,
Vou rasgar-lhe mais portas,
Vou torná-la mais simpática,
Mais disponível,
Mais atenta...
Vou fazer com que cante mais a beleza da vida,
Perca o medo e salte para o mundo,
Grite os valores e os direitos das pessoas e dos povos...

A Igreja é a minha casa
Se eu quiser...
Se tu quiseres....
Se nós todos quisermos...
Todos virão a ela
E todos nela se sentirão bem...
Porque ela é o rosto de Deus,
Porque Deus habita nela...
D. Manuel Martins

2005-04-03

João Paulo II

Quem tem menos de 30 anos, não conheceu na vida outro Papa ao não ser João Paulo II. A Igreja em tempo de grande festa, a Páscoa, veste-se de luto para o último adeus àquele que foi um líder espiritual próximo de todos, àquele que fez da sua vida um exemplo e um defensor de toda a vida.

Ao Deus que «nos fez renascer para uma esperança viva» (1 Pd 1,3), pedimos a graça de conservar o seu exemplo. Que o Espírito Santo ilumine a Igreja nesta fase de transição; que o novo Papa seja um homem capaz de ler o sinais dos tempos e de ser o principal protagonista, como foi João Paulo II, na construção do Reino de Deus neste mundo

David

2005-03-26

Festa

Era...
Era eu!...
Débil e ténue
De mãos recostadas
No conforto inconsolável
Dos perfumes mudos de dor...

Eras...
Eras Tu!...
Que descias nas cascatas
Das minhas lágrimas
Que galgavam como lanças
Em dias de combate...

Era...
Era eu!...
Fortaleza em ruínas
Sentinela do vazio
Gemido balbuciante que fervilha
“ Levaram o meu Senhor...”

Eras...
Eras Tu!...
Na neblina da minha procura
No milagre do amor
No coração festivo
Que a vida celebrou... “Mestre”.

Era... Era o silêncio efémero do sepulcro
Num hino retumbante de Vitória.

Joao Luís Silva CM

Homilia de Sexta -Feira Santa

Meus queridos irmãos e irmãs
Estamos aqui reunidos, unicamente porque o amor de Deus nos une e reúne, neste mistério que hoje celebramos que é a paixão e a morte do Senhor Jesus. Por isso mesmo só o silêncio orante de quem reza faz sentido.
É perante a cruz do Filho de Deus que descobrimos, quem somos, donde vimos e para onde vamos, a cruz de Cristo diz-nos quanto valemos aos olhos de Deus, e sabemos que valemos tudo.
A leitura do Livro do profeta Isaías que escutamos, fala-nos desse: “rosto desfigurado que tinha perdido a aparência humana, acostumado ao sofrimento”. Fala-nos desse vazio, que é a vida entregue, dentro da qual Deus constrói um mundo novo, vazio de egoísmo e poder para que o amor de Deus possa vir em cheio.
Só assim percebemos, que a cruz de Cristo é para nós sinal da presença amorosa de Deus, é a chave que desvenda e ilumina os mistérios da vida, da nossa vida e do nosso dia-a-dia.
Todos nós já fizemos a experiência do Jardim das Oliveiras, do abandono da solidão. Quantas vezes nos sentimos rejeitados, maltratados e sós.
Quantas vezes clamamos: Porquê Senhor, porquê tenho de sofrer?
Porque amamos e porque Deus nos ama.
“Amar é sofrer e sofrer é Amar”.
Esta a experiência de quem caminha com Jesus e para Jesus, porque Ele próprio deu a vida por nós.
E vós pais e mães de família, bem sabeis como isso é.
Quantas vezes vos rejeitastes para vos dardes aos vossos filhos.
E vós filhos quantas vezes o fizestes pelos a vossos pais já idosos e doentes.
Foi para sofrer?
Não!
Foi por amor, foi para não ver sofrer.
Esta é a mensagem da cruz do Senhor, nela fazemos a experiência de amar e dar a vida, é ai que experimentamos que o: “Seu jugo é suave e a Sua carga é leve”, porque Ele próprio a suporta connosco.
É esta capacidade de ir mais longe de ir até ao fim, como cantávamos no Salmo 22: “Meu Deus meu Deus porque me abandonaste”. Não é sentir-se abandonado por Deus, mas é fazer a experiência de todos os abandonados, que Cristo em Si transformou em Paz e em sinal de vitória.
Meus queridos irmãos e irmãs, pelo Evangelho sabemos que junto de Jesus no Monte Calvário estavam mais dois crucificados (o bom e o mau ladrão). Esses crucificados representam a humanidade inteira, somos nós nesta capacidade de dar a vida ou de a reter.
Percebemos também que ontem como hoje, Jesus nos quer no cimo da montanha e ao Seu lado para nos dar um Reino que é Ele próprio, percebemos ainda que em cada crucificado do mundo está Jesus.
Nesta Sexta-feira Santa meus irmãos o caminho de Jesus é o caminho que se oculta na esperança, e que nos torna peregrinos, é o caminho de Maria, que do caminho do Calvário, fez caminho para o coração de seu filho e para cada um de nós, como Mãe da humanidade.
Este é o nosso caminho, caminho de comunhão e salvação, de evangelização de vida.
Meus queridos amigos mergulhados neste mistério que é a cruz do Senhor só nos resta contemplar e exclamar: “Faz-nos morrer Senhor para que possamos nascer de novo para a vida nova que és Tu.
Celebramos hoje a morte do Senhor Jesus, certamente sentimo-nos comovidos não tanto porque o Filho de Deus morreu, mas sim porque foi por nós e para nós e porque o seu: “Amor permanece para sempre”.



João Luís Silva CM
Igreja de S. Tomás de Aquino – Lisboa

2005-03-24

«Eu dei-vos o exemplo...»

Já amaste?

Porque Deus é amor, quando verdadeiramente amamos participamos no «SER» de Deus e, por isso, estamos dispostos a fazer tudo para promover a pessoa amada.

Já amaste? Se sim, certamente terás experimentado essa força que te leva a fazer coisas loucas, incompreensíveis e inaceitáveis para as pessoas de “bom-senso”.

O Evangelho de hoje, Quinta-feira Santa, descreve-nos a atitude desconcertante de Jesus e a hostil reacção de Pedro. O discípulo compreende que Jesus inverte a lógica estabelecida ao assumir o papel de servo, lavando os pés dos apóstolos. Pedro, como todas as pessoas de «bom-senso», protesta porque não aceita a «lógica do amor». Por palavras e actos Jesus diz-nos que quem ama vai mais longe, supera regras, ultrapassa limites, surpreende a cada momento e tudo é gratuitidade (é o que fazem a maioria das mães por causa de seus filhos...). Ser discípulo de Jesus é fazer do amor regra de vida. O importante é amar. Quanto se ama tudo está bem, como dizia S. Agostinho: «Ama e faz o que quiseres...»

AMAS?

David

2005-03-13

«Lázaro, vem para fora».

Quantas vezes seria necessário libertar o Lázaro que mora em nós?

Todos nós guardamos nos arquivos da nossa memória experiências traumatizantes: mal-entendidos, apreciações injustas, sinais de desprezo por parte de outros, etc... Porque esses traumas nos fazem sofrer, evitamos a convivência com as pessoas que estão associadas a esses momentos. Com o decorrer dos anos, vai aumentado a lista daqueles com os quais nada queremos. Às vezes expressamos esse mal-estar quando dizemos que “aquela pessoa, para mim, já morreu!”

Desta forma, o nosso coração assemelha-se a um cemitério onde todos os dias/semanas, são sepultados novos irmãos. A nossa postura perante o outro, o nosso comportamento, denuncia, tantas vezes inconscientemente, a morte que caminha connosco, os Lázaros “malcheirosos” que nos tornam homens e mulheres amargos/as, ressentidos/as e intolerantes.

No Evangelho de hoje, Jesus diz: «Lázaro, vem para fora». Aquilo que parece impossível torna-se realidade: Lázaro vive de novo. Nestes dias de preparação para a grande festa dos cristãos, a Páscoa, oxalá seja também um tempo de libertação/ressurreição dos Lázaros que permanecem enterrados dentro de nós.

David

2005-03-09

Um Amor à cruz...

Eu me abandono, ó Deus, nas tuas mãos
Modela este barro, como faz o oleiro.
Dá-lhe forma, e depois, se quiseres,
esmigalha-a como foi esmigalhada a vida de João, meu irmão.
Ordena o que queres que eu faça
e o que queres que não faça.
Elogiado e humilhado, perseguido,
incompreendido e caluniado,
consolado, magoado, inútil para tudo,
só me resta dizer, a exemplo de Tua Mãe:
“Faça-se em mim segundo a Tua palavra”.

Dá-me o amor por excelência,
o amor à Cruz.
Não às cruzes heróicas,
que poderiam despertar em mim o amor próprio, a vã glória;
mas o amor às cruzes de cada dia
que se encontram na contradição,
no esquecimento, no fracasso, nos juízos errados e na indiferença,
na rejeição e no menosprezo dos outros,
no mal-estar e na doença,
nas limitações intelectuais,
e na secura, no silêncio do coração.

Só então Tu saberás que Te amo.
E isso me basta.

(Robert Kennedy)

2005-03-07

Construir...

«O Homem só se apercebe, no mundo, daquilo que em si já se encontra; mas precisa do mundo para se aperceber do que se encontra em si; para isso são, porém, necessários actividade e sofrimento».

(Hugo Von HOFMANNSTHAL)

2005-03-01

Oração

Silêncio!
A Tua “hora”
Na hora…
E no mistério orante
Do dealbar eterno
E fulgurante
Do meu lar:
“Filho, eis a Tua Mãe”.

João Luís Silva

2005-02-22

MEDO?

Uns dias antes das eleições legislativas, encontrei algumas pessoas muito ligadas à Igreja que temiam a vitória dos partidos de esquerda, sobretudo se o principal partido, o PS, se aliasse à esquerda radical. Homens e mulheres, inclusive consagrado/as, temiam as reformas laicizantes, as perseguições de um governo liderado por gente sem fé.

A vitoria do PS veio dar mais força à essa onda de temor. Contudo, parece-me que essa não é, nem deve ser, a nossa atitude. Em primeiro lugar porque o medo é paralizante, faz-nos viver na defensiva, como infelizes que esperam a má sorte dos outros. Essa é uma atitude pouco evangélica. Por outro lado, que há a temer? Que nos tirem as casas?, que se apoderem das nossas instituições?, que nos insultem na praça pública? Mas nada disso seria uma novidade, só que esquecemos que seguir Jesus significa desprender-se de tudo, inclusive daquilo que julgamos vital, e predispor-se para subir ao calvário onde seremos, como Jesus, crucificados.

Mais do que temer, é de pedir a Deus que esse tempo chegue de novo e de preferência o mais depressa possível, antes que este estado «morno» de gente satisfeita e contente tudo queime até as raízes mais profundas do cristianismo na nossa sociedade. Que venham essas revoluções que e nos obriguem a tomar as decisões que por conveniência não fomos capazes de tomar. Que apareçam esses “revolucionários” que nos reduzam a menos da metade e deixem apenas «um pequeno resto» de seguidores sem medo. Seria, provavelmente, um novo começo... a Igreja seria mais humilde, menos institucional, mas mais carismática. E isso seria bom...


David

2005-02-09

Hino de inicio da Quaresma

Benigno Criador, ouvi clemente
As nossas orações e o nosso pranto;
Neste sagrado tempo da Quaresma,
Compadecido olhai-nos, ó Deus Santo.

Justíssimo juiz das nossas almas,
Vós conheceis a enfermidade humana:
Voltando para vós arrependidos,
Pedimos a vossa graça soberana.

Confessamos que somos pecadores,
Mas, em vez de castigo, perdoai-nos.
Por vosso nome santo e vossa glória,
Da nossa vil miséria libertai-nos.

Aceitai o jejum e a penitência
Que em nossa própria carne suportamos;
Por eles, as nossas almas se libertem
Dos erros e misérias que choramos.

Estas nossas humildes oferendas
Aceitai, ó Santíssima Trindade,
E levai-nos, no amor purificados,
Ao esplendor da vossa eternidade.
(Rufino Grández)

2005-02-02

A Odisseia das frequências

São dias de retiro... vive-se fechados em casa, lendo textos que já foram lidos, memorizando ideias chaves, roendo unhas e tentando prever o que há-de sair nas frequências. No silêncio de cada quarto, para cada um de nós, há uma batalha que se trava e um novo mundo que se abre. Para manter a esperança, cada dia renovamos o compromisso de lutar até ao fim e juramos que tudo faremos para descobrir aquilo que nunca ninguém descobriu.

Os dias são contados. Alguns passeios foram adiados, as conversas abreviadas e as partidas de ténis de mesa limitadas porque é preciso estar no quarto. O tempo demora a passar. Na secretária, as matérias sucedem-se como os santos numa procissão. E lá virá o dia da sentença: «mais um 16? O prof. foi generoso!».

É a odisseia das frequências. Um tempo agridoce que lenta e discretamente nos transforma em Homens mais maduros. E, confesso, acho que é um tempo com piada, pois a vida de estudante sem frequências seria de um tédio insuportável, uma aventura previsível e um desafio sem obstáculos.
David

Contemplação...

Vinha de noite
E trazia a noite
A crepitar notícias de espanto
Nesta alegria de Te reconhecer
No transbordar da vida
No umbral da contemplação
Na centelha luminosa
Que em mim ecoou:
“Tens de nascer de novo
Num tempo que não volta atrás”


João Luis Silva

2005-01-29

O Alpinista



«Contam que um alpinista, desesperado por conquistar uma altíssima montanha, iniciou a sua escalada depois de anos de preparação. Como queria a glória só para ele, resolveu subir sem companheiros.
Durante a subida, a noite caiu, mas ele não estava preparado para acampar, por isso, decidiu continuar a subir... até escurecer. A noite era muito densa naquele ponto da montanha, e não se podia ver absolutamente nada. Tudo era negro, a lua e as estrelas estavam encobertas pelas nuvens. Ao subir por um caminho estreito, a apenas poucos metros do topo, escorregou e precipitou-se pelos ares, caindo a uma velocidade vertiginosa. O Alpinista via apenas velozes manchas escuras passando por ele e sentia a terrível sensação de estar sendo sugado pela gravidade.

Continuava a cair... e nos seus angustiantes momentos, passaram pela sua mente alguns episódios felizes e outros tristes de sua vida. Pensava na proximidade da morte, sem solução...

De repente, sentiu um fortíssimo solavanco, causado pelo esticar da corda na qual estava amarrado e presa estacas cravadas na montanha. Nesse momento de silêncio e solidão, suspenso no ar, não havia nada que pudesse fazer e gritou com todas as suas forças:

MEU DEUS, AJUDA-ME !!!
De repente, uma voz grave e profunda vinda dos céus respondeu-lhe:
QUE QUERES QUE EU TE FAÇA?
Salva-me meu DEUS !!!
REALMENTE CRÊS QUE EU TE POSSO SALVAR?
Com toda certeza Senhor !!!
ENTÃO CORTA A CORDA NA QUAL ESTÁS AMARRADO...
Houve um momento de silêncio; então o homem agarrou-se ainda mais fortemente à corda...

Conta a equipe de resgate, que no outro dia encontraram o alpinista morto, congelado pelo frio, com as mãos agarradas à corda... APENAS A DOIS METROS DO CHÃO...

E tu, cortarias a corda?»