2005-11-27

ADVENTO

Acredito na vida como um Advento:
Acredito que as árvores que parecem mortas hão-de ressuscitar.
Acredito que o céu cinzento há-de se vestir de novo de azul e o sol voltará a brilhar.
Acredito que aquele que dorme na rua há-de ter um lar e uma família.
Acredito em Deus, num Deus que se fez homem e continua vivo em nós.
Acredito em mim, no poder transformador do Homem, na sua capacidade de construir o Reino de Deus.
Acredito que um dia voltaremos a ser como crianças, que a alegria há-de vencer o medo e que a Vida superará a morte.
Acredito que a Paz é possível e que podemos viver, lado a lado, como irmãos, independentemente da cor, raça ou religião.
Acredito que o Amor pode fazer milagres e que todos os dias podemos amar.
Acredito na vida porque vivo-a como um Advento.

David


2005-11-17

O Pão da Palavra

Depois de uma breve leitura sobre S. Bernardo de Clareval, pareceu-me oportuno deixar uma pequena reflexão deste santo sobre a Sagrada Escritura:
"Por pouco que se possa ajudar as almas que procuram o Senhor com o seu espírito e afecto, deverei responder e satisfazê-las, extraíndo da Sagrada Escritura, da qual estou convencido dimana a vida, algo decisivo e espiritual, para que comam os desvalidos até ficarem saciados e vivam seus corações".
Num tempo com variados caminhos que nos chamam para aí alimentarmos o nosso coração, deixo aqui estas palavras, muito a propósito, sobre um alimento diário: ao levantar, a meio e a final do dia. Vamos ruminar a Palavra de Deus e concretizá-la ao longo do nosso dia no contacto com os outros!

Crisóstomo

2005-11-13

Teresinha do Menino Jesus e os talentos na Igreja

A parábola dos talentos recorda-me que, como baptizado, tenho responsabilidades no seio da Igreja que devem ser assumidas. Deus confiou-me alguns os Seus bens, alguns talentos, para que os faça render em favor de todos os irmãos.

Ao longo desta semana, em Lisboa, durante o Congresso Internacional para a Nova Evangelização, as relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus estiveram na Sé para serem veneradas pelos fiéis. Santa Teresinha, a jovem Carmelita, aquela que apesar de nunca ter saído do convento, tornou-se a Santa dos Missionários, no seu processo de discernimento vocacional escreve:

«Considerando o corpo místico da Igreja, (...) entendi que só o Amor faz os membros da Igreja agir, e que se o amor viesse a faltar, os apóstolos não anunciariam o Evangelho, os mártires não derramariam o seu sangue. Compreendi que o Amor encerra todas as vocações, que o Amor é tudo. Que ele inclui todos os tempos e lugares. Então, no excesso da minha alegria gritei: Ó Jesus, meu amor, encontrei finalmente a minha vocação... A minha vocação é o Amor. No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o Amor»

Ela fez render os talentos que Deus lhe confiou. Que grande exemplo nos deixou...

David

2005-11-01

Procuram-se santos

A santidade não está na moda. Se fizéssemos uma sondagem aos transeuntes das ruas da nossa cidade, vila ou aldeia e se lhes perguntássemos pelos seus desejos mais prementes, ouviríamos respostas deste género: «pois, gostava de ter um carro mais rápido, uma casa maior, uma mulher mais bonita, um marido mais assim ou assado» e por aí adiante. Mesmo entre nós, cristãos praticantes, julgo que as respostas são seriam muito diferentes.

Infelizmente, parece-me que a santidade não faz parte dos nossos bens desejados, nem está na lista dos nossos objectivos pessoais, nem entra nos nossos sonhos. É algo de outros tempos... Porquê? Talvez porque a julgamos fora do nosso alcance; talvez por medo do que os outros possam dizer a nosso respeito se trabalharmos diariamente para que esse ideal se torne real em nós; talvez porque é mais cómodo viver sem essas inquietações.

Mas a nossa vida de baptizados sem o desejo de viver em santidade será semelhante à de tantos irmãos que desconhecem a mensagem de Jesus. E a Igreja precisa, como a terra árida precisa de água, de novos santos, novas referência, novos modelos que actualizem a mensagem de Jesus neste mundo.
Queres ser santo?



David


2005-10-24

Quanto tempo o tempo tem...

"Os sonhos de Einstein" trata-se de uma peça de teatro que teve a sua estreia no passado sábado, dia 22 de Outubro, no Trindade. Os excelentes actores, o humor, a música e, sobretudo, o canto de vozes extraordinárias, proporcionaram-nos um grande espetáculo e uma tarde bem passada; sem dúvida, a melhor peça que assisti, mas este facto não deve ser tido em conta visto que foi apenas a segunda vez que fui ao teatro. Mas vale mesmo a pena ver... São quase duas horas de espetáculo em que nos é representada a vida de Einstein à volta da sua famosa teoria da relatividade, o tempo e os seus sonhos com a sua misteriosa amada. Isto chega para abrir o apetite; o melhor é mesmo ver a peça, que fica a ganhar muito pela música e canto. Fica a sugestão para quem quiser passar um bom bocado...
E já agora: "Quanto tempo são seis segundos?" É com esta pergunta que começa a peça... pensem na resposta...
Para mais pormenores pode consultar a página web www.teatrotrindade.inatel.pt
João

(IR)RESPONSABILIDADE SOCIAL…


No último sábado, dia 22, regressei aos Bairros 6 de Maio e Estrela de África (Amadora), na minha actividade de Pastoral. Fui participar na reunião de um dos grupos de missão que acompanho (“No djunta mon”), um grupo de guineenses.
A reunião correu muito bem e foi bom voltar a estar com aquela gente tão simples mas tão sedenta da Palavra de Deus como de atenção.
Antes da reunião, guiado por duas Irmãs dominicanas do Rosário, que aí têm uma comunidade, visitei uma das zonas que foram destruídas devido aos planos de realojamento.

Fiquei escandalizado!
Bem ou mal, retiraram as pessoas dessa zona.
Bem ou mal, levaram-nas para novos alojamentos.
Nada bem e muito mal, destruíram as barracas dessa zona do Bairro e deixaram os escombros no local.
O facto é que aí se reproduzem as ratazanas e outros animais.
Aí estão os canos da água a jorrar (e ainda dizem para pouparmos água…).
Aí andam as crianças do bairro sujeitas a magoar-se ou a ser mordidas pelas ratazanas (o que já aconteceu).

Será que esta gente é menos gente?
Será que o facto de serem pobres imigrantes, muitos deles ilegais, faz deles menos gente?
Será que, porque não são fonte de votos, são menos merecedores de atenção?
(Nem falo da sua cor de pele… prefiro acreditar que esse factor não é significativo…)
Será que a Câmara Municipal da Amadora distingue munícipes de primeira e de segunda?

Há que ser muito irresponsável para nada fazer perante tal situação!!!
Pelos vistos, em algumas zonas, reina a irresponsabilidade social!!!
É o país que temos!!!

MARTYR

2005-10-21

Por uma sociedade melhor

No nosso dia a dia as notícias que nos invadem, em geral, têm a ver com a situação económica do país: suas causas, vivências e possíveis soluções. Trata-se de um tema, digo-o com sinceridade, que já nem consigo ouvir, principalmente as mentes brilhantes que o comentam: “falam, falam, falam e não fazem nada…” Como problema central na sociedade hodierna, ele arrasta consigo muitos outros problemas que acabam por degenerar a sociedade… Mas não vou entrar por aí!
Ao passar os rápidos olhos pelo jornal diário, houve uma pequena notícia, relegada para as páginas onde fica a virtude, que li, reli, meditei e decidi partilhar. Trata-se da ACEGE(Associação cristã dos empresários e gestores) que decidiram elaborar um CÓDIGO DE ÉTICA, onde todos os membros são convidados a assinar, a título pessoal, um código onde prometem, por exemplo, “lutar contra todas as situações de fraude, pela justa remuneração dos seus colaboradores, pelo combate à evasão fiscal e à fraude”… e podia continuar a enumerar aqui os traços deste CÓDIGO DE ÉTICA.
Contudo o importante deste gesto, na minha humilde opinião, é, sem dúvida, a iniciativa deste grupo da sociedade (empresários) que assumem valores, não só cristãos, mas que são de toda a sociedade. São pequenos gestos que o cristianismo, ano após ano, século após século, vem apregoando aos ouvidos da sociedade e que não são apenas para aqueles que vivem como baptizados, mas para toda a sociedade.
E se todos nós, cristãos, assumíssemos as nossas raízes morais e éticas? A sociedade não viveria melhor? Certamente este problema é de todos, mas não é a sociedade portuguesa ainda maioritariamente cristã? E se fossemos os vanguardistas nesta matéria, tal como este grupo e outros que vivem ofuscados pela luz do consumismo e do individualismo?
Espero também não ser daqueles que
falam, falam!!…

Crisóstomo

2005-10-17

Alice

Alice é um filme (até parece um reportagem alargada, mas sem comentários) de Marco Martins que conta a história de um casal cuja a filha, Alice, desaparece sem deixar sinal.

A mãe da desaparecida vive como uma alma penada num purgatório que a castiga por um pecado nunca cometido; o pai – um sujeito sempre vestido de preto, de olhos fundos e escuros, cabelo e barba como as noites mais escuras, tudo negro como que a indicar o estado de espírito em que vive – cumpre diariamente uma série de rituais na esperança de descobrir Alice. Grande parte do filme revela a obsessão do pai que procura desesperadamente a sua filha entre as milhares de pessoas anónimas que todos os dias percorrem a cidade de Lisboa.

Alice terá sido o filme com menos palavras que vi nos dias da minha vida. Pobre nas palavras e nas cores, lento nas sequências, mas rico em imagens e na forma de transmitir uma mensagem. Uma pobreza que é riqueza porque meio deliberadamente escolhido para dizer o que não pode ser dito por meio de palavras, mas através de expressões corporais, sobretudo do olhar e das cores das manhãs frias e cinzentas.

A banda sonora do filme também é pobre: só de tempos a tempos ouvimos um clarinete acompanhado por um piano que amplifica as dores do casal, que revela ao ouvinte o estado de «transe» em que eles se encontram.

Em Alice o espectador é contagiado pelo drama do casal. Um drama infelizmente bastante real na nosso mundo. É também contagiado pela beleza da cidade de Lisboa.
O cinema português está de parabéns!

David

2005-10-16

Dar a César... e a Deus o que Lhe pertence.

A frase de Jesus «entregai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21) é, provavelmente, uma das mais conhecidas e citadas dos Evangelhos. Há bem pouco tempo, a propósito de um comentário a esta frase, uma boa senhora protestava contra o padre dizendo que «não lhe ficava bem falar desse assunto na Igreja». Para esta senhora, o padre deveria falar apenas de temas espirituais, de assuntos do outro mundo e nos modos de lá chegar e não nos incómodos problemas da realidade, nem nas jogadas que os homens fazem para não cumprirem as suas obrigações em relação ao Estado.

É verdade que esse assunto – isto é, o dever de dar a César, de pagar impostos - nunca despertou grande entusiasmo, nem mesmo entre nós, os crentes. Mas a afirmação de Jesus é clara: eu devo restituir aos Césares deste mundo aquilo lhes pertence. Actuar de outra forma é desonesto e imoral.

Mas mais ainda, devo entregar a Deus o que é d’Ele: como ser criado à Sua imagem e semelhança, o homem pertence a Deus. Entre outros aspectos, esta afirmação recorda-nos que quando nos servimos dos outros como objectos para alcançar os nossos fins, estamos a desrespeitar a obra de Deus. Dominar o homem que por natureza pertence a Deus, escravizar o irmão para proveito pessoal é, deste modo, uma conduta contrária à mensagem divina.


David

2005-10-12

UM ANIVERSÁRIO NA LUZ


Ainda o sol estava com preguiça de sair da cama e a chuva caía sem parar, quando ontem, nesta comunidade, um coro de «angelicais» vozes começou a louvar o Criador… o motivo desse acontecimento, como todos os dias, era o agradecimento pelo dom da vida e sua entrega nas mãos do seu Senhor nesse novo dia que começa, mas ontem havia um motivo especial… um de nós comemorava os 32 anos da sua peregrinação por estas paragens… era o (ontem menino) Nélio! Assim, em comunidade de alegria e fé, celebrámos a Eucaristia de louvor por esse dom para ele, para a sua família, para esta comunidade, para a CM, para a Igreja e para a humanidade.

Embora privados da sua presença na primeira refeição do dia (sim, porque o homem é um desportista!!!), avançámos para a normalidade das nossas actividades diárias, em ansiosa esperança do lauto e farto banquete que à noite nos esperava…

Recebidos os amigos, sempre bem vindos, rezadas as vésperas, começámos o banquete nupcial, embora desta vez sem noiva, e fomos regalando as nossas almas com a companhia e os nossos corpos com as iguarias…

Foi um dia especial… mas também não é todos os dias que se tem motivo semelhante!!!

MARTYR

NOTA – Esta não é nem pretende ser uma crónica… é só uma visão pessoal dos acontecimentos… até porque para cronista designou-se outro… que o seu papel desempenhará com distinção (ver Noticias)…

2005-10-09

Reino de Deus é como um banquete nupcial



A comparação do Reino de Deus com um banquete nupcial não terá surgido por mero acaso no diálogo de Jesus com os homens religiosos do seu tempo. Jesus não compara o Reino de Deus com um templo religioso, uma sinagoga, um lugar de oração, mas sim com um «tempo de festa», um lugar de fartura de comida e bebida, de encontro com os entes queridos, de música e dança, lugar da celebração festiva.
O rei que prepara a festa de casamento do seu filho, diz-nos Jesus no Evangelho de hoje, não obriga ninguém a participar, mas apenas convida. Deixa a cada um de nós, convidados, essa possibilidade de escolhermos entre fazermos festa com Ele ou ficarmos à margem, indiferentes.
Deus convida-nos cada dia que passa a essa intimidade festiva com Ele. Quando, livremente, aceitamos participar nesse banquete, podemos também dizer como S. Paulo dizia aos cristãos de Filipos quando se encontrava preso: «tudo posso por Cristo, que me dá força». A esse Deus que nos faz viver em contínua festa, «Glória pelos tempos sem fim. Ámen.»
David

2005-07-16

Desafio...

«Unido a todos os homens
que lutam por um mundo melhor
quero agradecer-te, Senhor,
a vida que pusestes em minhas mãos,
com tudo o que ela tem
de belo... de procura... de aventura... de risco!
Aceita tudo o que de melhor
começa a despontar em mim,
e que ainda nem conheço bem:
as forças novas e a alegria de viver...
os projectos e as decisões,
a vontade de trabalhar e lutar...
desejo de conhecer e amar...
a inquietação de procurar e conseguir...
a preocupação de servir e partilhar...
Que nada fique estéril em mim,
mas que tudo floresça e dê fruto!
Protege-me, Senhor,
nas incertezas e inseguranças da minha idade.
Defende-me do medo
que atrofia e não deixa fazer opções;
do farisaísmo que alimenta preconceitos
e defende a mentira;
da rotina que mecaniza e destrói as pessoas.
E que pelos meus esforços,
simples mas generosos,
eu me dedique inteiramente ao Teu serviço
e ao dos homens meus irmãos!»
(?)

2005-06-27

“FELIZES SEREIS VÓS QUANDO...”

Felizes os que sabem rir de si próprios: nunca deixarão de se divertir.
Felizes os que sabem distinguir uma montanha de um grão de areia: evitarão muitos aborrecimentos.
Felizes os que não se vangloriam para não se levarem muito a sério:
serão estimados pelos os que os rodeiam.
Felizes os que sabem olhar com seriedade para as pequenas coisas, e com a paz para as coisas importantes: chegarão longe na vida.
Felizes os que sabem admirar um sorriso e esquecer uma afronta: no seu caminho haverá sempre sol.
Felizes os que pensam antes de agir, e os que rezam antes de pensar: evitarão muitas asneiras.
Felizes os que sabem calar e sorrir mesmo quando lhes tiram a palavra, os contradizem e amesquinham: o Evangelho começa a penetrar no seu coração

2005-06-13

«Dai-lhes Senhor o Eterno descanso...»

Na madrugada deste dia 13 de Junho, festa de Santo António, Portugal veste-se de luto pela morte de duas ilustres figuras que marcaram o história portuguesa na segunda metade do século XX: Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade.

Álvaro Cunhal

É digna de memória a postura coerente e corajosa do ex-dirigente do PCP português, Álvaro Cunhal. Homem inteligente e dotado, Álvaro Cunhal destacou-se fundamentalmente pela sua luta antifascista. As teses por ele defendidas (o comunismo na sua essências) não são muito diferentes daquilo que a Igreja defende. Contudo, os meios para alcançar esses fins – maior justiça social, a promoção das classes desfavorecidas – diferem substancialmente.

Eugénio de Andrade

AS GAIVOTAS

«As gaivotas. Vão e vêm. Entram
Pela pupila.
Por fim o mar.
Não tardará a fadiga da alma.
De tanto olhar, tanto
Olhar. »

Eugénio de Andrade é um dos poetas mais lidos e apreciados quer em Portugal, quer no estrangeiro. Deixa-nos uma obra imensa...

«Dai-lhes Senhor o Eterno descanso...»

David

2005-06-10

ouve amigo...

A propósito do fim de semana prolongado, do sol, do cheiro a férias que se torna cada vez mais intenso... lembrei-me de te dizer, como outrora disse o Poeta Júlio Roberto:

«Ouve meu amigo,
não penses que a vida é apenas lutar
e sofrer para sobreviver.

A vida é também ser,
é sobretudo amar, sorrir,
cheirar uma flor,
ter algures um grande amor.

Correr pelos prados com uma canção na boca
e uma estrela no olhar.
Ouvir os pássaros a cantar
e gostar dos grilos a conversar.

A vida é também parar
escutar o som do vento
ver a espuma do mar.

Ter a mão nos cabelos de qualquer amor.

Fazer festas a uma criança
abrir a boca e dizer: Ah!,
são os foguetes que vão no ar.

A vida é tudo e nada.

E a alma da gente é como um lago
com cisnes e nenúfares,
e é também cantar para ti
esta canção de embalar.

Não te percas,
não sejas sério demais
não te deixes apanhar.

Anda, vem comigo,
vamos ver as conchas do mar...»

Bom fim de semana,

David

2005-05-24

Fracasso

Quanto supus ser vitória é fumo apenas.

Fracasso, linguagem do fundo, pista de outro espaço mais exigente, difícil de entreler é tua letra.

Quando punhas tua marca em minha fronte, nunca pensei na
mensagem que trazias, mais preciosa que todos os triunfos.
Teu rosto chamejante perseguiu-me e eu não soube que era para salvar-me
Para meu bem desterraste-me para lugares recônditos, negaste-me
êxitos fáceis, cortaste-me saídas.
Era a mim que querias defender ao não me conceder brilho.
De puro amor por mim manejaste o vazio que tantas noites me fez
falar febril a uma ausente.
Para proteger-me deixaste passar outros, fizeste que uma mulher prefira alguém mais ousado, afastaste-me de ofícios suicidas.

Vieste sempre dar a cara.

Sim, teu corpo chagado, cuspido, odioso, recebeu-me na minha
mais pura forma para me entregar à nitidez do deserto.
Por loucura amaldiçoei-te, maltratei-te, blasfemei contra ti.

Tu não existes.
Foste inventando pela soberba delirante.

Quanto te devo!
Levantaste-me a um novo nível limpando-me com uma áspera
esponja, lançando-me para o meu verdadeiro campo de bata-lha,
cedendo-me as armas que o triunfo abandona.

Levaste-me pela mão à única água que me reflecte.
Por ti não conheço a angústia de representar um papel, manter-me
à força num alto, trepar com esforços próprios, discutir
por causa de hierarquias, inchar até rebentar.
Fizeste-me humilde, silencioso e rebelde.
Não te canto pelo que és, mas pelo que não me deixaste ser. Por
não me dares outra vida. Por me teres diminuído.

Ofereceste-me somente nudez.
É verdade que me ensinaste com dureza e tu mesmo trazias o cautério!,
mas também me deste a alegria de não te recear.
Obrigado por me tirares espessura em troca de uma letra grande.

Obrigado a ti, que me privaste de vaidades.
Obrigado pela riqueza a que me obrigaste.
Obrigado por me construir com meu barro a minha morada.
Obrigado por me afastares.
Obrigado.

(Rafael Cadenas)

2005-05-12

A Mão no Arado

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs de verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte
É triste no Outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gente com que
montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos do amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
a atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente
(Ruy Belo)

2005-05-08

Ascensão e Missão

Trinta e três anos após a sua descida à terra, Jesus sob aos céus e entra de novo em casa. O anjo Gabriel ao vê-lO passar surpreende-se por tão inesperada chegada. Trinta e três anos não era o tempo suficiente para Jesus cumprir com a importante tarefa de lançar os fundamentos do Reino de Deus.
«Já de volta?» disse o anjo a Jesus.
«Bem... Eu gostaria de ter ficado por mais uns tempos, mas eles condenaram-me à morte e crucificaram-me», respondeu-lhe Jesus.
«Oh! Crucificaram-te?!», disse o anjo, «então isso significa que fracassastes...»
«Não necessariamente», acrescentou Jesus. «Sabes, Eu chamei e congreguei um pequeno grupo de discípulos. Eles irão agora prosseguir a minha missão».
«E se eles falharem?» perguntou o anjo.
«Eu não pensei nisso... não tenho outros planos. Eu confio neles...»

Já pensastes nessa missão que como discípulo estás chamado a realizar?

(David)

2005-04-28

A IGREJA É A MINHA CASA

A propósito da eleição do Papa Bento XVI e de algumas reacções menos «católicas» mesmo no seio da Igreja, lembrei-me do que há uns anos atrás escrevia o bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. O Texto é, certamente, conhecido, mas deixo-o neste espaço... (David)

Sim, é a minha casa,
Esta Igreja onde eu nasci e quero morrer...
Nela me sinto bem. Nela gosto de estar!
Aqui, eu penso, projecto, sonho, alimento-me...
Aqui, rezo, recordo, choro, zango-me, encontro-me...
Aqui sofro... aqui canto...
A Igreja é a minha casa
Gostaria, tantas vezes, de a ver
Mais acolhedora...
Mais aberta...
Com mais espaços para pessoas outras
(não é ela comunhão e sacramento?),
Mais gratuita...
Mais convidativa...

A Igreja é a minha casa
E tenho pena que, às vezes,
Feche portas,
Condene sem coração,
Corte com quem procura...
Eu amo muito a Igreja... porque
A Igreja é a minha casa...
Com defeitos?
Com a ruga dos anos?
Às vezes azeda?...
Então, porque lhe quero muito,
Vou pintá-la de fresco,
Vou rasgar-lhe mais portas,
Vou torná-la mais simpática,
Mais disponível,
Mais atenta...
Vou fazer com que cante mais a beleza da vida,
Perca o medo e salte para o mundo,
Grite os valores e os direitos das pessoas e dos povos...

A Igreja é a minha casa
Se eu quiser...
Se tu quiseres....
Se nós todos quisermos...
Todos virão a ela
E todos nela se sentirão bem...
Porque ela é o rosto de Deus,
Porque Deus habita nela...
D. Manuel Martins

2005-04-03

João Paulo II

Quem tem menos de 30 anos, não conheceu na vida outro Papa ao não ser João Paulo II. A Igreja em tempo de grande festa, a Páscoa, veste-se de luto para o último adeus àquele que foi um líder espiritual próximo de todos, àquele que fez da sua vida um exemplo e um defensor de toda a vida.

Ao Deus que «nos fez renascer para uma esperança viva» (1 Pd 1,3), pedimos a graça de conservar o seu exemplo. Que o Espírito Santo ilumine a Igreja nesta fase de transição; que o novo Papa seja um homem capaz de ler o sinais dos tempos e de ser o principal protagonista, como foi João Paulo II, na construção do Reino de Deus neste mundo

David